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terça-feira, novembro 06, 2012

Desta vez vi a Fórnea ... quase.

Em mais uma actividade do GEM (Curso de nível II de 2012), tive finalmente a oportunidade de me abeirar do topo da Fórnea. Pensava eu que pela primeira vez, sim, pela primeira vez, teria oportunidade de ver a enormidade daquele acidente geológico. Ainda não foi desta. A neblina enchia a "depressão" e só a espaços nos deixava ver o que se passava lá em baixo.


Também pela primeira vez desci o Chou Jorge, de má memória pois da ultima vez que estive lá à beira do poço de entrada, estava de joelho ligado, inchado e destroçado. Foi no dia em que não fiz o exame de espeleo ("chumbei" por falta técnica - pois parece que é preciso ter os joelhos todos a funcionar para descer uma vertical de 40m).

Esta descida ao Chou Jorge deu-me algo que estava a precisar na espeleo. Autonomia. Gostei sobretudo de perceber que as pessoas confiam em mim e isso quando desenvolvemos uma actividade arriscada, espectacular mas com muitos riscos, é uma sensação fantástica.

O poço de entrada não fica a dever nada ao da Arroteia, mas já não assusta, quer para baixo e mais importante ainda, quer para cima. Aquela sucessão de poços e corrimões, com fraccionamentos de esquina suspensos no vazio são espectaculares e decerto deixaram uma impressão fantástica na mente daqueles alunos (um abraço ao Rui Andrade pela magnífica equipagem). 
A parede oposta à via de descida, que tem praticamente a altura de todo o algar é uma das mais bonitas que já vi. Um fluxo calcitico de enorme beleza que deixa qualquer um de boca aberta.

Eis um algar que merece uma visita mais prolongada, sobretudo para apreciar com cuidado e a atenção merecida os níveis inferiores da cavidade.

Aspecto da parede do algar oposta à via de descida. Um poço vertical de mais de 50m completamente coberto por um fluxo calcítico (flowstone) que forrava a parede de candelabros, alforrecas, bandeiras, e outras formas lindas e pristinas.

O Mauro (aluno do curso) a descer o P30 (?) de acesso aos níveis inferiores do algar.

quarta-feira, agosto 01, 2012

O que é a espeleologia

... uma visão pessoal,

Esta, que podia ser uma pergunta com resposta simples, encontra demasiadas variações de modo que, por vezes, é possível assistir a discussões acesas sobre o que é exactamente a espeleologia.
Numa coisa todos concordamos. Espeleologia, etimologicamente, resulta da utilização de dois vocábulos gregos, spelaion (caverna, gruta) e logos (estudo), pelo que podemos afirmar com toda a clareza que Espeleologia é o estudo das cavernas, grutas, algares e outras ambientes subterrâneos.
Tudo se torna mais complexo quando aprofundamos a realidade espeleológica e, rapidamente, percebemos que existem ramificações em praticamente todas as áreas de actividade humana: Geologia, Biologia, Arqueologia, Antropologia, Turismo, Desporto, Economia, Fotografia, Cartografia, Topografia, etc...
Numa perspectiva simplista podemos dividir a Espeleologia em duas vertentes: a científica, na qual cientistas (espeleólogos ou não) estudam, analisam e constroem modelos, explicações e hipóteses para questões que explicam o mundo em que vivemos e; a lúdica, em que pessoas "normais" (espeleólogos ou não) desfrutam do prazer de visitar ambientes subterrâneos que colocam desafios pessoais muitas vezes de grande intensidade.
Entre estas duas visões, científica e lúdica, conseguimos enquadrar quase toda a actividade espeleológica Tentamos contribuir para o aprofundar do conhecimento do património espeleológico português, mas tentamos também, dar a conhecer ao maior número possível de pessoas as especificidades destes ambientes, desmistificando medos e sobretudo aumentando o reconhecimento que vise a sua conservação.
A unir ambas as visões existem uma série de requisitos técnicos, que dependem de um processo de aprendizagem longo e que asseguram a exploração destes ambientes subterrâneos em segurança e com fiabilidade. De facto, a actividade espeleológica quer seja realizada numa perspectiva científica quer na perspectiva lúdica, implica riscos elevados, é exigente fisicamente, depende da aplicação de inúmeros procedimentos e pode dar origem a acidentes e incidentes de gravidade não devendo em nenhuma circunstância ser entendida como uma actividade banal de dificuldade reduzida e disponível para todos em todas as circunstâncias.
Os ambientes subterrâneos são demasiado diversificados e de enorme complexidade, em extensão, profundidade, localização, que a sua exploração (mais uma vez científica e/ou lúdica) deve ser abordada com um conhecimento elevado dos limites individuais de cada um e sobretudo de quem nos acompanha, por forma a transformar uma actividade potencialmente arriscada numa actividade com riscos minimizáveis pela prática de bons procedimentos.


A vida pode ser dura, muito dura lá em baixo. Frio, água, lama, escuridão, espaços apertados, arestas aguçadas, poços profundos, equipamento pesado, mas o prazer de explorar está-nos enraizado e a alegria de incluir grupos de "malucos" imbuídos de um espírito de aventura e partilha dessa dureza faz-nos ultrapassar muitos limites.

Também publicado aqui.

quarta-feira, junho 13, 2012

Maços, martelos e baldes só nos faltou a branca de neve e ... os diamantes.

Humberto do GPS a explicar porque é azul ;)
Festa da Espeleo, Dia 1 de 4

Depois do soprador, depois de secarmos um bocado o fato ao sol, decidimos acompanhar outro grupo que iria realizar uma sessão de desobstrução no Algar Azul. Devo confessar que o nome engana um bocado e embora o Hugo Neves do GPS me tenha explicado o porquê ... fiquei a pensar que é mais para o ocre e barrento que azul.
Mas o facto é que (como percebi mais tarde) estas desobstruções têm sido de grande importância na exploração do sistema. Este algar, ainda pouco profundo, promete muito e percebe-se bem o investimento ali efectuado.

Lá em baixo trabalha-se com ganas.
Que me perdoem todos aqueles com os quais já andei a esburacar o chão mas, esta foi a desobstrução mais profissional em que me vi envolvido nesta minha curta carreira na espeleo. Tendas, martelos pneumáticos, um gerador e muita quinquilharia para cavar e sobretudo muito entulho no exterior mostravam claramente a intenção do GPS. Quando cheguei, já o Timóteo do CEAE-LPN e o Costinha estavam no fundo a preparar a desobstrução, uma vez que os trabalhos tinham parado num bloco que entupia uma pequena diaclase. Nada que o martelo pneumático não resolvesse. O resultado de todo este esforço foi de mais cinco metros em direcção ao fundo (atingidos num segundo dia em que já não participei).



Nada de diamantes!

1º Congresso de Fotografia Técnica em Gruta


O GEM, Grupo de Espeleologia e Montanhismo meteu-se em mais uma grande aventura: O 1º Congresso de Fotografia Técnica em Gruta.

Este evento que decorrerá em três momentos distintos: 21-23 de Setembro; 20-21 de Outubro e 15 de Dezembro de 2012 irá tornar-se, decerto, numa experiência fantástica para a maioria dos espeleólogos portugueses.

Podem consultar os detalhes do evento no site preparado para o efeito, aqui.

terça-feira, junho 05, 2012

domingo, junho 03, 2012

Tesourinhos espeleológicos 2

Continuação da série ... e mais explicações sobre a sua origem.
Os videos foram colocados no YouTube pelo Rui Francisco "Loia" aka "EspiritoSolitário" no canal do seu blog "Plenitude Espeleológica"  e a fonte citada é o CEAE/LPN (eu sabia que aquele chão axadrezado me fazia lembrar algo), que tem no seu CV/historial a seguinte referência:

"...
- Projecto TV. Produção de uma série de 6 episódios televisivos sob o tema genérico "Espeleologia", financiado pela Radiotelevisão Portuguesa, RTP, 1987-1988;"

Julgo não estar a cometer uma indelicadeza ao divulgá-los aqui também (mas e o for digam-me que retiro-os).


segunda-feira, maio 28, 2012

Algar do Vale da Pena, palhinhas, cabras e um algar inexplorado para acabar o dia


Depois de uma primeira visita ao Algar do Vale da Pena ou Algar dos Ursos como também é comummente referido (Nalga, NEALC), voltamos este fim de semana com diversos objectivos em mente.
O primeiro foi terminar os levantamentos para produzir uma topografia. Apesar de insistentemente me dizerem que existe, o facto é que não a encontro. Por isso faço a minha/nossa e depois logo a comparo com a que existir e que há-de aparecer. Entre os outros devemos referir: Filmagens e fotografia; exploração da "palhinha"; observação mais cuidada da zona de deposição de areias.
Está em forma. Dá aulas de geologia, faz topografia ... etc.
E devemos dizer que fizemos tudo. Todos tiveram o seu quinhão de aventura e adrenalina, vivendo cada um à sua maneira a experiência de descer a este algar. A topografia ficou completa e os dados de campo irão dar origem a um "desenho" do algar, embora tenham surgido algumas dificuldades que exigem acertos pontuais.

Em todo o caso surgiram novidades e essas, pelo menos face ao conhecimento dos elementos da equipa, terão de ser novamente avaliadas e bem medidas. Salientamos os seguintes aspectos:
  • Realizou-se a escalada e a descrição de uma fenda na sala dos ossos, que produziu duas salas, pequenas. A escalada fez-se em oposição vencendo um desnível de sensivelmente 5m;
  • Durante a topografia, identificou-se uma chaminé, no salão central, na direcção da galeria terminal dos lagos, com duas progressões possíveis. Uma no topo de uma chaminé que exigirá algum (muito) esforço de escalada, a outra, que parece desenvolver-se horizontalmente e que implica uma escalada de 6/7m;
  • Na descida da palhinha (na falta de melhor chamo-lhe assim, mas devíamos começar a encontrar nomes para estas coisas) que nos deu 41m (medição com fita métrica e com o ponto zero, 1m abaixo do topo da amarração), foi anotada uma passagem lateral (a 20m do fundo) que apesar de estreita, desemboca num poço de 2/3m de diâmetro e sem fundo visível).
  • Na sala do balcão avançou-se um pouco na continuação existente na base da sala, mas a eventual progressão depende de desobstrução. No fundo existe uma forte corrente de ar.
Sala do balcão. Note-se a inclinação.














Isto é, se pensarmos bem, ficaram mais pontas soltas que as que levávamos antes.  E tudo aponta para, pelo menos, mais uma deslocação, de gente mais expedita e experiente para explorar a continuidade encontrada na palhinha.

Por outro lado, e isso acontece com frequência quando vou para o campo, encontramos ... isso mesmo ... mais um algar. 
A história conta-se depressa e é igual a tantas outras. Um pastor (com a nuance moderna de nos aparecer num Range Rover) preocupado com as suas cabras, aborda-nos para ter a certeza que não levamos nenhuma no porta-bagagens e após dois dedos de conversa, lá nos diz os buracos que conhece. Para além do que acabamos de descer, fala-nos num que o Vitor reconhece logo como sendo a Lajoeira e de um outro ali perto onde costumava entrar de gatas quando era miúdo.
Acreditem, são 3x3m de boca ali debaixo das silvas!
É claro que fomos à procura. E é claro que encontramos. Não um buraquito onde se entra de gatas, mas um algar com uma boca de cerca de três por três metros, completamente coberta de silvas e outra vegetação bem densa. Após uma limpeza apressada, as primeiras pedras atiradas, pequenas, ficavam ali perto e não deixavam antever uma grande vertical. No entanto, o Luís resolveu atirar um calhau, de maiores dimensões e foi um ver se te avias a ouvi-lo rebolar por ali abaixo durante um bom bocado. Temos buraco ... para visitar rapidamente. Refira-se que não existem marcas de spits, etc, etc...

ed. 29Maio. O Vitor Amendoeira diz que se deve tratar do Algar das Gralhas (original não é?) em Moita do Poço. Agora falta obter mais informação para saber se se limpa a entrada e se se efectua uma entrada.

ps. continua por encontrar a gruta onde o pastor dizia brincar na infância.
pps: se me arranjarem a topografia da Gruta do Vale da Pena eu digo onde é que é esta.

quinta-feira, maio 17, 2012

Algar do Vale da Pena

Mais uma saída espeleológica para visitar um Algar localizado na zona de Alcobaça. Pouca informação disponível para esta visita, sem topografia e com poucas referências escritas de exploração. Um dos elementos do grupo, repetente, serviu de guia.

Aparentemente a designação como Algar ou Gruta dos Ursos deriva da presença das ossadas e das histórias associadas. Segundo informação recebida o verdadeiro nome desta cavidade será Algar do Vale da Pena e será "uma pena" deixar cair a designação correta e mais antiga em detrimento de uma que tem a ver apenas com um aspecto particular da cavidade.
Entrada do Algar. Esta e as fotos que ilustram este post são da Marta Borges.
A equipagem revelou-se algo trabalhosa já que inclui 3 fraccionamentos, o ultimo deles num tecto a definir uma vertical de descida, curta mas bem bonita. No total a extensão de corda utilizada (sem contar com os nós) medida com fita métrica foi de 30,30m. A equipagem com 3 fraccionamentos deve implicar a utilização de pelo menos 50m de corda.
O Algar do Vale da Pena revelou inúmeros motivos de interesse: muitos espeleotemas; depósitos de areias e vestígios osteológicos (as célebres ossadas de urso).

A vertical de descida no centro da sala principal.
A descida do poço deixa-nos no centro de uma sala, de grandes dimensões, sobre um depósito de blocos e com uma inclinação muito elevada (ver esboço de alçado). Foi na projecção da boca do algar que encontramos um exemplar de Víbora-cornuda (Vipera latastei) que tratei de "embrulhar" e no final da actividade transportar para a superfície.

A sala tem duas continuações possíveis. A da direita é a que apresenta mais potencial espeleológico, isto é, apresenta algumas hipóteses de continuação ainda mal exploradas (pelo menos com meu conhecimento). É nesta secção que surge o tubo/palhinha e uma secção com lagos que termina num túnel inundado (in Relatório de Actividades de Espeleogia. GEM. Fev, 2011) a merecer uma avaliação cuidada. [de acordo com informações adicionais do António Devile, do Nuno Rodrigues e do Sérgio Medeiros, nem o tubo nem os lagos oferecem hipóteses de continuação]

A galeria da esquerda apresenta, desde o seu inicio, um elevado número de estalactites, estalagmites, colunas e outros espeleotemas. Surpreendente pela diversidade, quantidade e integridade.

A progressão faz-se por um balcão lateral plano, que evita a descida ao ponto mais baixo onde existe um poço aparentemente sem continuidade. É na continuação desta sala que se observam os depósitos de areia. Estes depósitos estão cobertos por manto calcítico que em alguns locais, julgo até que por acção humana, começam a deixar "fugir" as areias que ficaram encapsuladas no manto. 
Entrada na sala do balcão.
As bolsas de areias encontram-se apenas na área que une a sala do balcão da sala dos ossos. Julgo ser interessante ver que a cota mais baixa destas salas é idêntica, bem como a cota do tecto.

Parece que os depósitos de areia e a subsequente "fossilização" com a consolidação do manto calcítico acabaram por separar estas duas salas. O esvaziamento destas bolsas dá origem ao aparecimento de estruturas suspensas, abóbodas cuja superfície inferior mostra um conglomerado a merecer uma visão mais detalhada por um "experto" que não um biólogo armado em espeleólogo.

Manto calcítico suspenso na zona das areias.

A sala dos ossos retoma a altura que se observa na sala do balcão e apresenta também uma elevada quantidade de espeleotemas. Nesta sala são de destacar os vestígios osteológicos, já envolvidos por calcite e uma coluna de calcite alva que apresenta uma superfície cheia de micro gours de grande beleza.

Esta gruta contém valores patrimoniais únicos. As bolsas de areias (a hipótese referida pelo P. Rodrigues no relatório anterior de se tratarem de vestígios do episódio marinho que fez da encosta ocidental do maciço uma arriba marinha devia merecer uma análise mais detalhada), a sua significação e a tendência de quem visita a gruta de escavar um pouco; os vestígios osteológicos e a sua posição periclitante no percurso e logo sensíveis ao pisoteio; a integridade e diversidade dos espeleotemas observáveis e finalmente a existência de pontas soltas (é muito provável que apareçam entretanto mais informações) tornam urgentes algumas medidas de conservação. 
A sinalização dos vestígios osteológicos pode evitar o seu pisoteio e a delimitação de um percurso na zona das areias pode impedir a sua crescente destruição.







Víbora-cornuda (no exterior depois de aquecer ao sol)
Apresentam-se de seguida os esboços parciais do trabalho de campo. Dados processados no Visual Topo.